segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Névoas


Nas horas tardias que a noite desmaia
Que rolam na praia mil vagas azuis,
E a lua cercada de pálida chama
Nos mares derrama seu pranto de luz,

Eu vi entre os flocos de névoas imensas,
Que em grutas extensas se elevam no ar,
Um corpo de fada — sereno, dormindo,
Tranqüila sorrindo num brando sonhar.

Na forma de neve — puríssima e nua —
Um raio da lua de manso batia,
E assim reclinada no túrbido leito
Seu pálido peito de amores tremia.

Oh! filha das névoas! das veigas viçosas,
Das verdes, cheirosas roseiras do céu,
Acaso rolaste tão bela dormindo,
E dormes, sorrindo, das nuvens no véu?

O orvalho das noites congela-te a fronte,
As orlas do monte se escondem nas brumas,
E queda repousas num mar de neblina,
Qual pérola fina no leito de espumas!

Nas nuas espáduas, dos astros dormentes
— Tão frio — não sentes o pranto filtrar?
E as asas, de prata do gênio das noites
Em tíbios açoites a trança agitar?

Ai! vem, que nas nuvens te mata o desejo
De um férvido beijo gozares em vão!...
Os astros sem alma se cansam de olhar-te,
Nem podem amar-te, nem dizem paixão!

E as auras passavam — e as névoas tremiam
— E os gênios corriam — no espaço a cantar,
Mas ela dormia tão pura e divina
Qual pálida ondina nas águas do mar!

Imagem formosa das nuvens da Ilíria,
— Brilhante Valquíria — das brumas do Norte,
Não ouves ao menos do bardo os clamores,
Envolto em vapores — mais fria que a morte!

Oh! vem; vem, minh'alma! teu rosto gelado,
Teu seio molhado de orvalho brilhante,
Eu quero aquecê-los no peito incendido,
— Contar-te ao ouvido paixão delirante!...

Assim eu clamava tristonho e pendido,
Ouvindo o gemido da onda na praia,
Na hora em que fogem as névoas sombrias
– Nas horas tardias que a noite desmaia.

E as brisas da aurora ligeiras corriam.
No leito batiam da fada divina...
Sumiram-se as brumas do vento à bafagem,
E a pálida imagem desfez-se em — neblina!

(Fagundes Varela)

11 comentários:

Pensador disse...

Lindo texto.
Me fez ver a névoa de maneira diferente.
Mais viva, mais poética.
Beijos!

Malu disse...

Deixou-me a impressão de um sonho, sonhado com vigor e intensidade, onde a névoa se encarrega de desvendar o caminho.
Abraços

Angel disse...

Simplesmente fantástico!
Quem dera eu ser fada para me cantarem um poema assim!
Obrigada pela tua SEMPRE presença!

um anjo

Zélia Gadelha disse...

Que lindo Déia!Bela sensibilidade de escolha!
Bjusss

Arnoldo Pimentel disse...

Muito lindo o poema, parabéns pela postagem.Beijos

Paulinha Barreto disse...

Nossa você sempre arrasando nos postes ..muito lindo.

Beijos e otima semana ainda.

Álvaro Lins disse...

Excelente poema!
Bjo

♡ Jane dos Anjos ☆ disse...

Que lindooo... tudo me pareceu tão real neste poema... parabéns pela escolha... Bjs e bom fim de semana!!
http://artesdosanjos.blogspot.com/

edumanes disse...

Nas horas tardias,
Deste lindo poema
Rostos com alegrias
Quem aposta não teima?
Nas ondas do mar eu via
Gigantes com medo ficava
Porque nadar não sabia
Deitado na areia espreitava!
Muitas horas lá permanecia
A brisa, vinda, do mar apreciava.

Com um abraço me despeço,
Bom fim de semana desejando
Sou apreciodor, de poemas, confesso
Para comentar o próximo estou voltando.
Eduardo.

Alexandre Fernandes disse...

Como se nada fosse óbvio. E os encantos surgissem gradualmente.

A vida é um descobrir. Um redescobrir.

Lindo!

tecas disse...

Simplesmente belíssimo!!!Este texto poético deixa o leitor flutuar... maravilha.
Bjito amigo.