quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Tu Tens um Medo...



Tu Tens um Medo

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor. 
Na tristeza. 
Na dúvida. 
No desejo. 
Que te renovas todo dia. 
No amor. 
Na tristeza 
Na dúvida. 
No desejo. 
Que és sempre outro. 
Que és sempre o mesmo. 
Que morrerás por idades imensas. 
Até não teres medo de morrer. 
E então serás eterno. 
Não ames como os homens amam. 
Não ames com amor. 
Ama sem amor. 
Ama sem querer. 
Ama sem sentir. 
Ama como se fosses outro. 
Como se fosses amar. 
Sem esperar. 
Tão separado do que ama, em ti, 
Que não te inquiete 
Se o amor leva à felicidade, 
Se leva à morte, 
Se leva a algum destino. 
Se te leva. 
E se vai, ele mesmo... 
Não faças de ti 
Um sonho a realizar. 
Vai. 
Sem caminho marcado. 
Tu és o de todos os caminhos. 
Sê apenas uma presença. 
Invisível presença silenciosa. 
Todas as coisas esperam a luz, 
Sem dizerem que a esperam. 
Sem saberem que existe. 
Todas as coisas esperarão por ti, 
Sem te falarem. 
Sem lhes falares. 
Sê o que renuncia 
Altamente: 
Sem tristeza da tua renúncia! 
Sem orgulho da tua renúncia! 
Abre as tuas mãos sobre o infinito. 
E não deixes ficar de ti 
Nem esse último gesto! 
O que tu viste amargo, 
Doloroso, 
Difícil, 
O que tu viste inútil 
Foi o que viram os teus olhos
Humanos, 
Esquecidos... 
Enganados... 
No momento da tua renúncia 
Estende sobre a vida 
Os teus olhos 
E tu verás o que vias: 
Mas tu verás melhor... 
... E tudo que era efêmero 
se desfez. 
E ficaste só tu, que é eterno.
(Cecilia Meireles)



2 comentários:

Lídia Borges disse...


O medo de acabar não deixa viver.

Gosto muito deste poema de Cecília Meireles.

Um beijo

Ingrid disse...

sempre Cecília...
beijos.