quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar seus olhos que são doces...
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres exausto...
No entanto a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida...
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto...
E em minha voz, a tua voz...
Não te quero ter, pois em meu ser tudo estaria terminado...
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados...
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada...
Que ficou em minha carne como uma nódoa do passado...
Eu deixarei...Tu irás e encostarás tua face em outra face...
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada...
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu...
porque eu fui o grande íntimo da noite...
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa...
Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém, porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas,
serão a tua voz presente, tua voz ausente, a tua voz serenizada.
(Vinícius de Morais)

3 comentários:

FLOR DO LÁCIO disse...

Vi você em meu jardim e vim retribuir-lhe a carinhosa visita. Trago-te uma rosa roxa do Flor do Lácio e vim dizer-lhe que sempre quando fores lá podes trazê-las contigo. Afinal aquele jardim foi construído para vocês. Obrigado pela visita.

Alexandre Fernandes disse...

Um lindo texto de Vinícius, que reflete toda a profundidade que a ausência causa. E os sentimentos despertados. um amor que fica à sombra, pronto para desabotoar o que lhe prende.

Beijos!

Xanda disse...

Que lindo! Adorei seu blog. Já estou seguindo. Passa no meu e se gostar... me segue também. Bju Xanda
http://xandanatura.blogspot.com/