domingo, 27 de novembro de 2011

A Um Ausente


A Um Ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enloqueceu, enloquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


(Carlos Drummond de Andrade)

6 comentários:

mfc disse...

Uma partida sem despedida não permite que o luto da separação se faça!

Lindalva disse...

Era a hora dele ir... Olá amiga voltei as ondas e hoje venho te convidar para as brincadeiras BLOGUEIRO OCULTO e o MAGIA DO NATAL que estou lançando no salão azul da Ilha, o convite e o link se encontram lá ♥ ♥ ♥ beijos no coração.

Pensador disse...

Bela homenagem, Deia!
Drummond é sempre maravilhoso de se ler...
Beijo!

Vivian disse...

...pois é, menina!


é a vida nos roubando pessoas!

bjs

Álvaro Lins disse...

Parabéns pela escolha! É um dos meus (muitos) preferidos:)!
Bjo

Carmen Troncoso disse...

Todas las partidas apuran nuestro desapego, bonita entrada, un abrazo,